Um artigo sobre acesso à leitura, formação de leitores e os limites de políticas públicas baseadas apenas na distribuição de livros.
Como uma iniciativa que visa à promoção do acesso à leitura e ao fortalecimento cultural é claro que a notícia nos chegou como uma bruma fresca, trazendo um acalanto de esperança, no entanto é primordial considerar que, apesar do programa MEC Livros apontar caminhos significativos, é insuficiente se encarado apenas como entrega de exemplares físicos ou digitais. O acesso, por si só, não é, infelizmente, o único empecilho encontrado para que o hábito da leitura seja melhor desenvolvido em terras brasileiras.
A experiência mostra que políticas públicas que disponibilizam livros precisam encontrar terreno fértil para serem semeadas, ou seja, famílias, escolas e comunidades comprometidas com esse mesmo propósito; sendo elas agentes potentes para incutir uma cultura de leitura que transforme o objeto em prática cotidiana. Sem essa disposição social, o livro fica muitas vezes relegado ao armário ou à sala de aula, como mera mercadoria didática, sem cumprir seu papel formador. Não é raro encontrar ex-leitores que se perderam em meio a tantos outros estímulos, ou a leitores meramente técnicos, que o fazem apenas pela obrigação. A leitura precisa encontrar seu lugar de entretenimento, novamente, em que seja prazeroso, divertido, assustador, emocionante acompanhar as narrativas, torcer por personagens, aguçar a vontade de conhecer determinados lugares… ou simplesmente fantasiar.
Mais do que apontar as falhas em busca de vilões antiliterários, é preciso internalizar socialmente que a responsabilidade é coletiva, sendo compartilhada dentro de cada âmbito, portanto: famílias que leem para crianças, ou fazem do compartilhamento de suas leituras um hábito (quando há adolescentes ou somente adultos na composição familiar), professores que incorporam leituras significativas e prazerosas (importantíssimo e urgente é a adequação à faixa etária) e bibliotecários ou agentes de incentivo à leitura que animam acervos com atividades lúdicas e diferenciadas são agentes decisivos para converter acesso em hábito. Não obstante a esse senso de coletividade estão a mídia, as editoras e os agentes culturais que podem influenciar de forma positiva os cidadãos à sua volta: promovendo títulos relevantes, diversificando vozes e tornando a leitura atraente em tempos de competição por atenção digital.
E por que estamos pensando nisso? Porque políticas que não consideram esses elos tendem a repetir a lógica da distribuição sem impacto profundo, sem resultado significativo, já que agregarão ampliação de acervo e de acesso para os já leitores, aqueles que têm o hábito instaurado, o gosto apurado. Isso quer dizer que de nada vale? Não, democratizar é também tornar mais acessível para quem já sabe o poder da leitura, para quem já vivencia esse prazer; o que queremos trazer para a discussão é que podemos obter muito mais, enquanto sociedade, diante de iniciativas como essa. O objetivo é também ampliar a quantidade de leitores em território nacional, trazer para esse lado da força novas mentes aguçadas para mergulhar em histórias.
Importante frisar que a vontade de muitos dos agentes responsáveis não é somente uma atitude individual isolada: ela nasce de condições materiais e simbólicas. É preciso observar quais são as condições de fatores como: disponibilidade de tempo livre, garantia de segurança, habitação. Não podemos esperar que uma família em que falte o básico possa pensar na leitura como uma necessidade, mesmo que não custe nada financeiramente; afinal, infraestrutura e garantia de qualidade de vida são pré-requisitos para que a curiosidade floresça e o hábito se estabeleça. Programas que não enfrentam tais desigualdades — como jornadas de trabalho exaustivas, falta de internet, baixa valorização do professor, escassez de alimentos ou segurança — limitam a capacidade dos potenciais leitores de abraçar os livros.
Por fim, é preciso migrar de uma lógica de oferta para uma estratégia de engajamento. Distribuir livros deve caminhar junto à formação de leitores: clubes de leitura, mediação qualificada, projetos comunitários e estímulos familiares. Sem a mobilização cultural e afetiva da sociedade, iniciativas como o MEC Livros permanecem bem-intencionadas, porém aquém de seu potencial transformador.
Distribuir livros é importante. Formar leitores, no entanto, é o que realmente transforma uma sociedade.
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