Um conto sobre violência silenciosa, memória e coragem — quando romper o ciclo passa a ser o único caminho possível.
O apartamento 13-D exalava lavanda e silêncio. Lavanda das flores delicadamente plantadas na pequena jardineira de plástico. Silêncio do medo de ferro. Alice era meticulosa; cuidava com esmero e atenção redobrada de cada detalhe dos afazeres domésticos, para que tudo estivesse impecável antes que Domenico chegasse do trabalho. Mesmo tendo desempenhado seu papel profissional com suas 26 criancinhas sedentas por atenção durante todo o dia, era ele quem chegava cansado. Agora era a vez dele. Vez de ser cuidado, de ser olhado, de ser amado — como fazia questão de afirmar perante ela nos momentos mais quentes, fossem de amor ou de raiva.
O silêncio permeava cada movimento sutil que ela orquestrava cautelosa, temorosa vagando por entre os tecidos, mantas e almofadas. Cada toque sobre a maciez dos fios, agora lindamente arrumados, lembrava a dor. Ela acariciou de leve o pulso ainda dolorido e pousou essa mão sobre o ouvido, como se formasse um triângulo com membros e cabeça.
O grito.
A dor física pulsava, era bem verdade. Mas a dor da humilhação cortava mais fundo. Rasgava-lhe a carne.
Dom jamais a agredira de verdade — não se pode pensar isso, afinal. Era bem verdade que havia momentos em que se destemperava, mas, pensava, quem não se descontrola vez ou outra? Quem não perde a cabeça depois de um dia complicado?
Ela.
Ela não se descontrolava. Ela não perdia a cabeça, mesmo quando o mundo na escola parecia cair sobre seus ombros. Mantinha-se firme. Calma. Ponderada. Talvez até muito mais do que deveria.
Eles eram o casal perfeito, ela sabia. Perfeito para os vizinhos, para a família dela — ou dele —, para as escassas amizades que nutriam: sorrisos no elevador, gracejos nos jantares, elogios nos encontros sociais. Um ou outro afago. Mãos entrelaçadas.
Nada demais, nada de menos.
Ninguém percebia, ou se dava ao trabalho de perceber — menos ainda de comentar —, os olhos de Dom se estreitando quando Alice compartilhava uma nova conquista no trabalho (ou um simples elogio), quando a flagravam conversando com um colega, um vizinho, algum conhecido — fosse quem e de onde fosse. Não importava. Tampouco era digno de nota as mãos cerradas ao lado do corpo ou o espasmo na boca — aquele que sempre fazia quando ficava nervoso. Somente ela parecia notar, porque assim que as portas do 13-D se fechavam, os gritos, as cobranças, as acusações eram abafados pelo volume alto da televisão. Os episódios se repetiam, diferente dos capítulos da novela que não tinham reprise. As tensões se criavam a partir de qualquer perspectiva mínima de desagrado pela parte masculinizada da relação, que, depois da explosão, sempre aparecia com flores, pedidos de um recomeço, um agrado ou um afago. Como se nada daquilo fosse mesmo real, como se tivesse sido uma divagação. Dela, claro.
Eram momentos desgastantes, permeados de raiva, era bem verdade, porém inofensivos. Nunca antes chegara ao toque, e essa constatação trouxe um arrepio. Arrepio que lhe percorreu a espinha, paralisando parte dos movimentos repetitivos da arrumação cotidiana. O gosto amargo da lembrança dominou suas papilas e sentiu a alma sendo invadida pela infância perdida:
A cama macia e quentinha abraçava a menina de oito anos com seus cabelos loiros, olhos azuis, pele branca salpicada de sardinhas e a cabecinha cheia de sonhos quando — pela primeira vez — acordou com o irmão menor chorando a seu lado. Nunca aquilo havia acontecido ou ela nunca acordara? Sentiu a densidade do ar como um peso. Era estranho. O pequeno sacolejava os ombrinhos entre um soluço e outro. Em meio ao desespero, ele conseguiu apenas apontar o dedinho para a fresta da porta entreaberta, de onde vinham ruídos e gritos abafados.
Espiar foi um erro. Ela carregava a culpa de ter visto o pai — aquele homem carinhoso que sempre lhe enchia de beijos e carinhos, que adorava levá-la ao bar para escolher doces enquanto bebia “uma gelada” com os companheiros e que sempre parecia estar de bem com a mamãe — com a feição carregada de ódio, desferindo na sua companheira golpes, palmadas e socos enquanto uma mão a segurava no ar. A cena ainda ressoava dentro dela, como um sinal de rádio mal sintonizado. A cena ainda a fazia sentir-se culpada. Ela poderia ter impedido, poderia ter percebido antes, poderia ter feito tantas coisas.
Ela não fez.
Ela era uma criança.
A mãe escorregou o olhar para a entrada do quarto e a viu. Seus olhos se cruzaram numa rajada de segundos, num gesto de cumplicidade contido. A mãe, com o rosto dominado pelo pavor, cerrou os olhos até que tudo se acalmasse. Até que ele terminasse.
Alice fingiu dormir. Não dormiu.
O medo enganchou seu coração de menina sonhadora e o levou a bater em descompasso por muitas horas. A pelúcia predileta jazia na cama tentando acalmá-la sem nada poder fazer. Ela embalou o irmão, a pelúcia e a si mesma num vai-e-vem ritmado até que o pequeno pudesse dormir.
A claridade começava a brindar o quarto quando percebeu que seu coração estava mais ritmado. Menos anormal do que antes. Nunca mais voltaria ao normal.
Suspirou em resignação, prometendo-se que nunca viveria algo parecido. Sua convicção de menina sonhadora de oito anos cobrava-lhe o preço. Onde estava ela?
A menina sonhadora? Sua convicção? Ou as duas juntas?
Alice conviveu, desde a noite mais assustadora de sua vida, com a falta do grito que ela não deu. Um grito escondido no fundo da garganta e da memória, assim como o medo e a incapacidade de salvar sua própria mãe, seu irmão, a si mesma e sua pelúcia.
Sentiu o sangue pulsar mais forte dentro de si. Acelerou os próprios movimentos. Uma onda de frenesi tomou conta dela e queria aproveitá-la tal qual fazia quando pegava jacarés nas ondas perfeitas durante as muitas férias de família. O pai. Era ele quem orquestrava essa brincadeira. Como era possível a mesma pessoa ter lados tão opostos? Ou sequer percebera a realidade?
Ela não sabia.
Ela era criança.
O fim de tarde começava a despontar no horizonte, as primeiras brisas do outono brindavam seu rosto petrificado enquanto ela encarava a porta pintada em tom avelã, a maçaneta recém-trocada depois de um acidente doméstico — que nem é preciso dizer como ou por quê. Ela aguardava pacientemente, sentindo o coração pulsar no ritmo da paz. A decisão tinha sido tomada. Não teve a ilusão de que seria fácil, mas era preciso dar voz ao grito calado de 20 anos atrás.
Acariciando, mais uma vez, o pulso dolorido e dando voz ao coração magoado, Alice percebeu que a dor física a lembrava da realidade, não das promessas de amor. Aquele era só o começo, e deveria ser o fim. Na verdade, ela sabia, aquele era o meio. O começo foi o primeiro grito. Foi o começo do desrespeito.
O estalar metálico da chave na fechadura a fez sobressaltar. O sofá parecia ter espinhos, tamanha sua inquietação. Lembrou-se de que ainda estava segura e desejava permanecer assim. Tomou uma lufada de coragem para sustentar a postura. Dom entrou sorrindo, mas o sorriso não alcançou seus olhos; Alice respirou fundo, a lavanda no ar misturando-se à sua coragem de salvar a si mesma. A chave da porta ganhando corpo em suas mãos, fazendo volume por entre os dedos, não cabendo mais naquele lugar. Nem ela. Alice não seria mais prisioneira daquela narrativa destorcida de amor e felicidade.
Os olhos dela alcançaram o rosto de Dom, uma respiração mais forte a invadiu e ela permitiu-se uma leve menção de cabeça a si mesma, reafirmando: Você é capaz de fazer isso. Faça-o. Agora!
Ele seguia confuso, encarando-a como se não a reconhecesse. E não a reconheceria, de fato.
Com um movimento sutil e pouco ensaiado, ela pousou o molho de chaves sobre a mesa de centro de vidro — o som causando-lhe um arrepio —, estreitou o olhar e sorriu com genuína simplicidade, deixando para trás não só um marido, um amor, mas um algoz, um agressor.
O chiado das rodinhas da mala que desfiavam o corredor em direção à liberdade recém-conquistada foi o único som possível de ouvir dentro do 13-D. As portas de lá nunca mais foram abertas por Alice.
Às vezes, o primeiro passo para a liberdade não é um grito. É a decisão silenciosa de nunca mais voltar.
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Esta é uma obra de ficção. Todos os nomes, títulos, lugares e situações são frutos da imaginação da autora ou usados de forma ficcional. Quaisquer semelhanças com pessoas, fatos ou situações da vida real são mera coincidência.
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